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Em 02/06/2021 07h00 , atualizado em 02/06/2021 13h00

Negra, albina e com baixa visão, bolsista é aprovada em 1º lugar na USP pelas cotas

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Jovem de 20 anos sempre estudou na rede pública de ensino e foi bolsista de cursinho particular. Por Silvia Tancredi
Jovem passou no vestibular da Fuvest, um dos mais concorridos do país
Jovem passou no vestibular da Fuvest, um dos mais concorridos do país
Crédito da Imagem: Divulgação
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Ana Beatriz Nery Ferreira, 20 anos, de São Paulo, foi aprovada em primeiro lugar para o curso de Psicologia na Universidade de São Paulo (USP). Negra, albina e deficiente visual, a jovem concorreu como cotista racial da rede pública no Sistema de Seleção Unificada (SiSU).

Durante todo o período escolar, Ana estudou em escolas públicas. Em 2018 e 2019, foi aluna do MedEnsina, cursinho comunitário organizado por estudantes da Faculdade de Medicina da USP. No ano seguinte, descobriu que poderia concorrer a uma bolsa de estudos no cursinho particular Poliedro. Então, ela participou da seleção e foi contemplada com a bolsa.

Albinismo

Filha de mãe negra e pai branco, Ana Beatriz nasceu com albinismo oculocutâneo, que afeta a produção de melanina na pele, nos cabelos e nos olhos. Embora tenha a pele muito branca, tem traços de pessoa negra.

"Eu nunca tive o privilégio de ser tratada como branca, mas, ao mesmo tempo não sofria o mesmo tipo de racismo de uma pessoa negra. Era um conflito muito grande".

À medida que cresceu, a jovem percebeu como o racismo impactava na sua família. "A nossa sociedade é extremamente racista, então eu tentava me afastar das características que me remetiam a negritude", recorda.

A estudante lembra que passou a se identificar como negra somente quando entrou no ensino médio e passou a ter mais contato com movimentos sociais, tanto de negros quanto feministas. Foi quando deixou de alisar o cabelo e se assumiu como uma jovem negra.

Ana Beatriz tem albinismo oculocutâneo

Para ela, sempre foi uma questão muito forte pensar se deveria ou não concorrer como cotista racial na hora do vestibular. "Eu optei por usar as ações afirmativas porque essa é minha identidade. Existem pessoas oportunistas tentando acessar um espaço que não é voltado a elas, mas não é o meu caso", analisa.

Ana Beatriz relembra que algumas pessoas já questionaram sua identidade racial, mas elas eram brancas. 

"Existe uma aceitação da diversidade da branquitude, mas uma aceitação da diversidade da negritude não é aceita. A diversidade da negritude existe. O Brasil é isso. Negar a raça de alguém é negar a história, no caso, a minha história e da minha família", analisa Ana Beatriz.

Deficiência visual

Ana descobriu tardiamente uma deficiência visual que a impedia de enxergar direito. Na infância, achava que se tratava de um problema comum de visão, como uma miopia, por exemplo, mas não era isso. Na verdade, a jovem tinha baixa visão por causa do albinismo.

A visão de Ana é limitada e, como consequência, tem dificuldade para enxergar tanto de longe quanto de perto. "No meu caso, preciso de recursos ópticos, como lentes de apoio e fontes ampliadas. Para enxergar de longe, por exemplo, costumo usar a câmera do celular", explica.

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Por causa da baixa visão, a estudante precisou solicitar prova ampliada no vestibular da Fuvest e no Enem 2020. "Na minha opinião, foram provas que conseguiram ser acessíveis", elogia. 

Preparação para o vestibular

Em 2018, Ana Beatriz tornou-se modelo fotográfica, mas, embora profissionalmente tenha sido uma boa oportunidade, a experiência interferiu na sua rotina de estudos. No ano seguinte, ela conversou com seus pais para se dedicar integralmente ao cursinho.

"Na periferia, às vezes não temos muito direito de sonhar e escolher nossa trajetória, mas minha família entendeu que a educação era um meio de transformar nossa realidade".

Ana Beatriz é modelo fotográfica

Assim como a maioria dos cursinhos, o Poliedro adotou o Ensino a Distância (EaD) quando a pandemia do coronavírus começou, em março de 2020. A estudante sentiu dificuldade nas primeiras aulas pela internet, mas, com o tempo, se adaptou. 

A jovem tinha aulas de manhã, pelo computador, e estudava à tarde até as 20h. Aos finais de semana, ela fazia simulados, os quais considera que a ajudaram a traçar estratégias de prova.

"Ser bolsista de um curso particular me ajudou bastante. Eu tinha toda uma estrutura do colégio e apoio dos professores, o que não é a realidade da maioria dos estudantes de baixa renda."

Entretanto, o mais difícil, segundo a estudante, foi lidar com a ansiedade e o medo pela Covid-19.  "O meu bairro teve uma taxa de mortalidade muito alta por causa do coronavírus, o que aconteceu também em outros bairros de periferia. O medo era constante, principalmente com a saúde dos meus pais", relembra.

Psicologia

Inicialmente, Ana Beatriz pensou em outros cursos de graduação da área de humanas, como Direito, História e Ciências Sociais, por causa da formação política que eles trazem. 

Mas, quando pesquisou mais sobre Psicologia, entendeu que era o curso certo para ela. "Comecei a enxergar a Psicologia como um mecanismo de transformação social com grande impacto na vida das pessoas. Então, entendi que seria muito mais feliz do que nas outras opções. A grade de disciplinas do curso me deu ainda mais certeza de que era o que eu queria fazer", explica.

A jovem ressalta que foi bem recebida pelos colegas de faculdade. "Tambem passei a fazer parte do coletivo de estudantes negros do Instituto de Psicologia da USP, o Escuta Preta. Esse coletivo me acolheu de braços abertos", comemora.

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