Trote: tradição medieval, rito de passagem ou ruptura dos princípios morais e éticos?

Tema: Trote: festa ou violência?

[Redação sem título]
Corrigida tradicionalmente Enviado em 07/02/2011
Nota tradicional: 9
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Qual concluinte do ensino médio que nunca sonhou em ser aprovado no vestibular? É lamentável o fato de que alguns, em destaque aqueles que concorrem para um curso cuja relação candidato/vaga seja alta, fracassem no exame seletivo, tendo que refazer a prova até que alcancem o objetivo de ver o seu nome estampado no listão. Já os que são aprovados, têm de passar pelo marco inicial do ensino superior: o trote, uma forma de o veterano receber o calouro, ou seja, dos estudantes mais antigos da instituição de ensino recepcionar os novatos.

Há indícios de que a origem do trote esteja relacionada com a fundação das primeiras universidades, na Europa da Idade Média, quando os calouros não podiam frequentar as mesmas salas que os veteranos e, portanto, assistiam às aulas em seus vestíbulos. Nesta mesma época, os noviços tinham os cabelos raspados e as roupas queimadas. Mas foi, sobretudo, no século XIV em que tais rituais se tornaram mais agressivos: os estudantes tinham pelos e cabelos arrancados e eram obrigados a beber urina e comer excrementos. O trote é, portanto, uma tradição medieval. Do ponto de vista antropológico, essa prática é um rito de passagem, pois ao mesmo tempo em que consiste num cerimonial fixo na cultura acadêmica, ele representa um ritual de violência e agressão do veterano contra o calouro. Também há a premissa de que o ato simboliza uma prática oposta aos valores humanistas da universidade. Em síntese, o trote é uma das mais controversas tradições do ensino superior.

Entretanto, mesmo nos dias de hoje, há veteranos que abusam do direito de aplicar o ato e acabam tornando o trote como uma tortura, com humilhações e até agressões físicas, exigindo que os calouros ingiram bebidas alcóolicas, fumem, retirem as roupas íntimas, peçam dinheiro em semáforos, enfim, realizam toda prática de natureza ofensiva. Um exemplo recente de tal barbárie foi o que ocorreu no dia 04 de fevereiro na Universidade de Brasília, onde os veteranos agrediram integrantes do DCE da casa de ensino por estes tentarem impedir a brincadeira violenta. Como se não bastasse, uma caloura menor de idade teve que ser socorrida pelos bombeiros por estar completamente alcoolizada. Por outro lado, existem os que optam por fazer com que os novos alunos recolham doações em benefício de determinada instituição de caridade ou, simplesmente, participem do plantio de árvores em prol do meio ambiente.

Desta forma, analisando o trote como uma prática “danosa” e ofensiva, ele não estaria contribuindo com a violência? Se todo comportamento que causa dano a outra pessoa é tido como violência, o trote não se enquadraria nessa classificação? Bem, sabe-se que esta prática não traz nada que contribua com o meio no qual vivemos. Pelo contrário, ela favorece com a construção de uma sociedade enferma, repleta de células cancerígenas. O único remédio que poderá destruir esses glóbulos doentes será substituir o trote nas universidades por alguma política que traga benefícios para o coletivo em geral, como, por exemplo, realizar campanhas em prol dos menos favorecidos, fazer com que os calouros (em especial os de Medicina) levem alegria até os pacientes internados em hospitais, em suma, fazer do movimento de se pintar com tinta, algo em harmonia tanto com o ambiente universitário quanto com o social.

Em conclusão, no clássico Dom Casmurro, Machado de Assis, com a ironia que lhe é característica, registrou que “o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes”. Nessa máxima, o escritor compara a consciência humana como um pêndulo, que ora oscila para um lado, ora para outro. Pois é exatamente desta forma que a sociedade atual se demonstra ante o trote universitário: ora pune as guerras e roga por um mundo pacífico, ora não toma partido contra as práticas que verdadeiramente induzem à violência.

Correção tradicional

Critério Observações Nota
Adequação ao Tema Avalia se o texto consegue explorar as possibilidades de ideias que o tema favorece. Como no vestibular, a redação que foge ao tema é zerada. 1.5
Adequação e Leitura Crítica da Coletânea Avalia se o texto consegue perceber os pressupostos da coletânea, assim como fazer relação entre os pontos de vista apresentados e outras fontes de referência. 2.0
Adequação ao Gênero Textual Avalia se o texto emprega de forma adequada as características do gênero textual e se consegue utilizá-las de forma consciente e enriquecedora a serviço do projeto de texto. 1.5
Adequação à modalidade padrão da língua Avalia se o texto possui competência na modalidade escrita. Dessa forma, verifica o domínio morfológico, sintético, semântico e ortográfico. 2.0
Coesão e Coerência Avalia se o texto possui domínio dos processos de predicação, construção frasal, paragrafação e vocabulário. Além da correta utilização dos sinais de pontuação e dos elementos de articulação textual. 2.0
Nota final 9

Legenda de competências

Competência Descrição
1 Domínio da modalidade escrita formal
2 Compreender a proposta e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o texto dissertativo-argumentativo em prosa
3 Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações em defesa de um ponto de vista
4 Conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação
5 Proposta de intervenção com respeito aos direitos humanos