A redação do Enem é um texto dissertativo-argumentativo em que o candidato deve defender um ponto de vista sobre o tema proposto no exame, que em geral é de relevância social. Para isso, é preciso apresentar uma tese, desenvolver argumentos consistentes e propor uma intervenção para o problema discutido.
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Para começar a redação do Enem, leia com atenção o tema e os textos motivadores. Eles ajudam a entender qual problema deve ser discutido. Depois da leitura, defina quatro pontos:
Com esses pontos em mente, a introdução pode ser construída com uma estratégia simples: apresentar uma contextualização e, em seguida, indicar sua tese. Essa contextualização pode usar um dado numérico, uma referência histórica, uma obra literária, um filme, uma lei, um conceito sociológico ou uma situação social conhecida. O mais importante é que essa referência tenha relação clara com o tema a ser desenvolvido.
Segundo a Cartilha do Participante do Enem 2025, a redação deve ser construída com argumentos organizados de forma coerente e coesa, além de apresentar uma proposta de intervenção social relacionada ao problema abordado. O texto deve ter entre 8 e 30 linhas.
A introdução é a parte inicial da redação. Nela, deve-se apresentar o tema, contextualizar a discussão e indicar a tese, isto é, o ponto de vista que será defendido no decorrer da redação.
Na introdução, você deve deixar claro qual problema será analisado e quais caminhos argumentativos serão desenvolvidos. Para isso, é possível começar com uma referência histórica, social, cultural, artística, midiática ou jurídica, desde que ela tenha relação direta com o tema.
Em geral, a introdução pode apresentar:
O desenvolvimento é a parte em que a tese é sustentada por argumentos. Cada parágrafo deve apresentar uma ideia central, explicá-la e relacioná-la ao problema discutido na redação.
Na estrutura mais comum da redação do Enem, o texto apresenta dois parágrafos de desenvolvimento. Cada um deles trabalha um argumento diferente, mas ambos devem estar ligados à tese apresentada na introdução.
Para construir o desenvolvimento, é importante evitar apenas listar informações. Você deve explicar as causas, consequências ou aspectos do problema, além de mostrar como os dados ou o repertório usados fortalecem essa argumentação.
Um parágrafo de desenvolvimento pode apresentar:
A conclusão é a parte final da redação. Nela, você retoma a discussão feita ao longo do texto e apresenta uma proposta de intervenção para enfrentar o problema abordado.
No Enem, a proposta de intervenção precisa ser clara, viável, aprofundada e relacionada ao tema. Além disso, deve respeitar os direitos humanos e indicar de que maneira o problema pode ser resolvido ou reduzido.
Uma proposta de intervenção completa deve apresentar cinco elementos:
Atenção! A conclusão não deve trazer um novo argumento principal. Sua função é fechar o raciocínio desenvolvido no texto e propor uma resposta concreta para o problema discutido.
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Veja alguns exemplos reais de redação de anos anteriores.
Tema: Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira
Candidato: Wellington Ribeiro, de Recife (PE)
Na obra "Feliz aniversário, a escritora Clarice Lispector aborda, dentre outros aspectos, a realidade de exclusão vivenciada por grande parte dos idosos brasileiros, os quais, de acordo com a autora, só são lembrados por seus familiares em datas comemorativas. Ao transpor o viés literário, percebe-se a acentuação dessa problemática, a qual aborda a falta de perspectiva social perante ao envelhecimento existente no Brasil contemporâneo. À vista desse conceito, é ideal analisar o passado nacional e o descaso governamental como desafios para a plena longevidade da sociedade.
Diante desse cenário, nota-se que a dificultosa promoção de um futuro digno à terceira idade advém de um processo de desenvolvimento nacional pautado na exclusão socioespacial. Isso pode ser constatado, de forma evidente, pois o país, desde o período do Brasil Colônia, foi construído por práticas violentas (como a promulgação da Lei dos Sexagenários), as quais visavam à marginalização de escravizados com mais de 60 anos em detrimento da inserção respeitosa dessa parcela da população no cotidiano brasileiro. Nesse sentido, essa atitude segregacionista mascara, há gerações, a necessidade de reverter esse revés e naturaliza, nos dias atuais, o silenciamento desenfreado dos idosos, produzindo culturalmente a ideia de inferioridade desse grupo. Assim, torna-se inegável o contínuo retrocesso da nação a cerca do reconhecimento da velhice como importante e inevitável, à medida que a manutenção de raízes históricas degradantes existe.
Ademais, é fundamental ressaltar que a negligência estatal perpetua a aversão social ao inerente envelhecimento populacional. Essa questão se intensifica, na atualidade, ao passo que o Brasil não possui uma campanha nacional concreta e eficaz de estímulo à qualidade de vida da terceira idade. Tal panorama foi estudado pelo pesquisador Ruy Braga, o qual, a partir de uma perspectiva crítica voltada à realidade latino-americana, verbaliza que a ausência de um modelo assistencial inclusivo e socialmente comprometido permite o não reconhecimento dos idosos como integrantes ativos da sociedade. Sob essa ótica, o posicionamento do estudioso é válido, visto que políticas públicas ineficientes possibilitam a precarização do bem-estar da terceira idade, de modo a qualificar essa faixa etária como pouco importante para a edificação da nação - suprimindo o seu futuro salutar. Por isso, essa situação hostil precisa ser revertida.
É premente, portanto, uma medida que perpetue perspectivas positivas ao envelhecimento populacional. Logo, cabe ao poder Executivo Federal — mais especificamente ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania — fomentar o respeito à terceira idade. Tal ação ocorrerá por meio da criação do “Projeto Nacional Vida Feliz”, o qual engajará debates públicos — ministrados por idosos —, nos 5570 municípios brasileiros, a fim de desmistificar ideais advindos da colonização do Brasil e de protagonizar a atuação de pessoas idosas no combate direto e frontal à marginalização sofrida por elas, culminando na promoção da dignidade a essa parte da sociedade. Afinal, não é aceitável que, em um país democrático, a população envelhecida seja, como denunciado por Clarice, invisibilizada.
Tema: Desafios para a valorização da herança africana no Brasil
Candidato: Rafael Santana Assunção, de Belo Horizonte (MG)
O álbum musical "Duas Cidades", da banda brasileira Baiana System, aborda, em algumas de suas canções, o apagamento da influência histórica africana no Brasil. Inegavelmente, em dias atuais, é possível constatar uma relação direta entre a composição artística citada e a desvalorização da herança africana no país. Isso é explicado devido à falta de política pública de ensino e à ausência de lei específica. Logo, é essencial analisar e intervir sobre essa problemática.
A princípio, deve-se observar que o pouco fomento governamental em ações de gestão educacional é um problema a ser combatido. Sob a perspectiva de Macaé Evaristo, ministra dos Direitos Humanos, é urgente a necessidade de iniciativas para a inclusão da história e da cultura afro-brasileira nas escolas. Para entender melhor tal posicionamento, é importante compreender que o atual ensino sobre os povos africanos é apenas relatado em aulas específicas de algumas disciplinas, como história e literatura, sem se aprofundar na grande influência cultural que a África possui no Brasil. Dessa forma, de acordo com Chico César, cantor e compositor de músicas afro-brasileiras, as crianças e os adolescentes necessitam ter uma formação ampla sobre a temática, com aulas multidisciplinares, por exemplo, de música e de capoeira, bem como as tradicionais aulas já existentes, porém integradas à herança africana presente na sociedade. Nesse sentido, é substancial modificar esse contexto e desenvolver uma forte política pública de ensino.
Ademais, é imperativo pontuar que atitude insuficiente do Poder Legislativo Federal em atuar no tema é um problema a ser combatido. Sob a ótica de Duda Salabert, deputada federal e professora de literatura, é imprescindível a alteração da lei que orienta a educação básica brasileira. Isso pode ser explicado pelo entendimento de que apenas com empenho legislativo é possível transformar o mecanismo legal que define as matrizes de referência do ensino nacional. Dessa maneira, com a união de parlamentares para o reconhecimento da importância da herança africana na formação educacional, poderá ocorrer a consolidação de políticas públicas, como o investimento da capacitação de professores e de profissionais especializados em cultura afro-brasileira. Assim, o crescimento do fomento estatal no setor, garantido por aparato legal, contribuirá para a efetivação de uma forte identidade nacional. Em suma, se o Congresso Nacional se omite de enfrentar tal cenário danoso, entende-se o porquê de sua perpetuação.
Portando, com o intuito de solucionar esses desafios, o Poder Executivo Federal, por meio do aumento de ações governamentais, deve estimular iniciativas educacionais relacionadas à herança africana, a fim de valorizar a temática. Além disso, o Poder Legislativo Federal, por intermédio da criação de um projeto de lei, necessita elaborar uma nova política nacional de ensino, com a obrigatoriedade de investimento público na área, com a definição de medidas de gestão pública capazes de instituir aulas multidisciplinares, como de música e de cultura afro-brasileira nas escolas, com o objetivo de reconhecer a importância do tema na formação da sociedade. Feito isso, o apagamento da influência africana abordado na obra da banda Baiana System será, enfim, combatido.
Tema: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil
Candidato: Maria Luiza Januzzi, de Valença (RJ)
De acordo com a pensadora brasileira Djamila Ribeiro, o primeiro passo a ser tomado para solucionar uma questão é tirá-la da invisibilidade. Porém, no contexto atual do Brasil, as mulheres enfrentam diversos desafios para que seu trabalho de cuidado seja reconhecido, gerando graves impactos em suas vidas, como a falta de destaque. Nesse sentido, essa problemática ocorre em virtude da omissão governamental e da influência midiática.
Dessa forma, em primeiro plano, é preciso atentar para o descaso estatal em relação aos obstáculos enfrentados diariamente por mulheres que trabalham como cuidadoras. Segundo John Locke, “as leis fizeram-se para os homens e não para as leis”. No entanto, a inércia governamental direcionada à tais pessoas não cumpre com o previsto na Carta Magna, visto que a falta de investimento em políticas públicas causa dificuldades no âmbito profissional deste setor - como a desvalorização salarial. Isso contribui para que suas necessidades sejam cada vez mais negligenciadas.
Além disso, a influência dos meios digitais é um fator agravante no que tange ao problema. Para Chimamanda Adichie, mudar o “status quo” - o estado atual das coisas - é sempre penoso. Essa conjuntura pode ser observada no papel que a mídia possui na luta diária de mulheres que exercem o trabalho do cuidado ou doméstico, uma vez que ela auxilia no fortalecimento de uma mentalidade social machista no país. Isso ocasionou o silenciamento da população feminina, enraizando a lógica do patriarcado na sociedade. Diante do exposto, as mulheres perdem a voz na busca por direitos profissionais na área de cuidado, ao ser propagada a ideia de que essa função é sua, e somente sua, obrigação.
Portanto, é necessário que esta situação seja dissolvida. Para isso, o governo, órgão responsável por garantir a condição e existência de todos, deve prover apoio psicológico e financeiro às cuidadoras, por meio de investimentos e pelo exercício das leis, a fim de sanar a vulnerabilidade socioeconômica existente no cotidiano desses grupos. Paralelamente, os meios de comunicação precisam combater a lógica de inferioridade e a concepção machista agregadas a este trabalho. Assim, será possível solucionar esta questão, pois será retirada do cenário de invisibilidade, como propõe Djamila.
Veja algumas dicas para se dar bem na redação do Enem.
- uma afirmação central;
- uma explicação;
- um exemplo, dado ou repertório.
Evite apenas citar um repertório, pois é preciso explicar por que ele está sendo trazido naquele parágrafo, ou seja, como ele se relaciona com aquele argumento e como ele ajuda a defender o ponto de vista.
Confira os temas de redação do Enem desde 2010:
2025 - aplicação regular: Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira
2025 - aplicação Belém, Ananindeua e Marituba (Pará): A valorização dos trabalhadores rurais no Brasil
2025 - reaplicação e PPL: A idade mínima para o trabalho como forma de proteção à infância
2024 - aplicação regular: Desafios para a valorização da herança africana no Brasil
2024: reaplicação e PPL: Desafios para a valorização da arte de periferia no cenário cultural brasileiro
2023 - 1ª aplicação: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil
2023 - 2ª aplicação: Desafios para (re)inserção socioeconômica da população em situação de rua no Brasil
2022: Os desafios para a valorização das comunidades e povos tradicionais do Brasil
2021 impresso e digital: Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil
2021 - 2ª aplicação: Reconhecimento da contribuição das mulheres nas ciências da saúde no Brasil
2020 impresso: O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira
2020 digital: O desafio de reduzir as desigualdades entre as regiões do Brasil
2019: Democratização do acesso ao cinema no Brasil
2018: Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet
2017: Desafio para a formação educacional de surdos no Brasil
2016 - 1ª aplicação: Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil
2016 - 2ª aplicação: Caminhos para combater o racismo no Brasil
2015: A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira
2014: Publicidade infantil em questão no Brasil
2013: Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil
2012: Movimento imigratório para o Brasil no século 21
2011: Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado
2010: O trabalho na construção da dignidade humana
Fontes
ABAURRE, M. L.; ABAURRE, M. B. Produção de texto: interlocução e gêneros. São Paulo: Editora moderna, 2007.
INEP. A redação do Enem – Cartilha do(a) participante. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/enem/enem-2025-cartilha-da-redacao-esta-disponivel
Fonte: Brasil Escola - https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/enem/como-fazer-redacao-enem.htm