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Em 08/11/2017 13h24, atualizado em 08/11/2017 13h43

Refugiados encontram em universidades brasileiras a oportunidade de uma vida nova

Notícias

Universidades públicas estão criando vestibulares específicos para o ingresso de imigrantes e refugiados Por Lorraine Vilela Campos
Equipe do Migraidh UFSM trabalha com refugiados de Lajeado/RS
Equipe do Migraidh UFSM trabalha com refugiados de Lajeado/RS
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Recomeçar! Verbo que expressa a vida de milhares de refugiados e imigrantes que chegam ao Brasil todos os anos. Pessoas que deixam seu país de origem por causa de desastres ambientais, guerra e outras formas de violência precisam encarar as dificuldades de um recomeço em uma terra diferente. 

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Deixar a família para trás em busca de novas oportunidades após ver seu país devastado por um desastre ambiental não é fácil para ninguém. Desde o terremoto de 2010, mais de 45 mil refugiados haitianos chegaram ao Brasil para um recomeço em suas vidas. A estudante de Pedagogia Manael Ben Elshad Jennifer, de 22 anos, faz parte dos milhares que deixaram o Haiti para recomeçar a vida.

“O mais difícil é a insegurança que se sente de deixar tudo que você ama para se aventurar no desconhecido”, conta Manael, sobre deixar sua família no Haiti para buscar oportunidades de estudo e emprego no Brasil. Entre outras dificuldades, a jovem relembra a incerteza sobre o local de sua moradia em solo brasileiro e a dúvida sobre como iria se sustentar.

“O mais difícil é a insegurança que se sente de deixar tudo que você ama para se aventurar no desconhecido” - Manael, refugiada haitiana

Preparação

A ajuda de voluntários foi fundamental na preparação de Manael para a vinda ao Brasil. “Meu primeiro contato com estrangeiros foi pela minha igreja, porque eles foram como missionários para o Haiti”. Por meio de uma missionária chilena que estudou no Brasil, a jovem soube da possibilidade de estudar em terras brasileiras. 

“Estudei português durante 1 ano e seis meses no Centro de Língua Portuguesa Brasil-Haiti, ainda quando morava no Haiti”, destaca. Esse apoio deu à Manael mais segurança em vir para o Brasil. A missionária que ajudou a jovem continua dando suporte para ela após a migração. 

Recepção e acolhimento

Manael se instalou na cidade de Anápolis, em Goiás, onde há a Universidade Estadual de Goiás (UEG). A instituição conta com iniciativas de acolhimento aos refugiados e imigrantes com visto humanitário. “Fui bem acolhida tanto pelo pessoal da minha igreja (responsáveis pelo auxílio na migração) quanto pela equipe da universidade”.

A haitiana Manael estuda pedagogia em Anápolis/GO 
Créditos: Arquivo Pessoal

A jovem haitiana teve a oportunidade de participar de um curso de português assim que chegou ao Brasil. A professora Sirlene Antônia Rodrigues da Costa, responsável pelo projeto de ensino da Língua Portuguesa aos estrangeiros que procuram a UEG, destaca que as aulas são um meio de acolhimento e inserção social. O programa já atendeu, além de pessoas do Haiti, sírios, turcos e franceses que chegam à Anápolis. 

Além disso, Manael foi aprovada no vestibular para refugiados e imigrantes da UEG e está cursando Pedagogia. No Haiti, ela havia feito um curso para ser secretária e outro de línguas modernas após concluir o ensino médio. 

Muitas pessoas são obrigadas a abandonar seus estudos no país de origem, pelos mais diversos motivos, ou concluem o ensino superior e não exercem a profissão quando chegam ao Brasil, devido à burocracia da validação do diploma ou necessidade de complementação do conteúdo estudado. 

Apesar das incertezas, Manael sonha em um futuro melhor sem esquecer do agora. A jovem procura um emprego que possa conciliar com seus estudos, já que sua prioridade é a faculdade. “Pois é a oportunidade de estudar fora do país (Haiti) que é a minha maior razão de estar aqui”, completa. A futura pedagoga é bolsista do programa de permanência da universidade e tem como desejo fazer uma pós-graduação antes de retornar ao seu país. 

Inserção social

Oportunidades como a que Manael teve são importantes para quem é acolhido e para quem acolhe. “Abrir as portas da universidade para a comunidade de refugiados é uma oportunidade de inclusão por meio da qualificação profissional e aprendizado da cultura local”, ressalta o assessor de Relações Exteriores da UEG, Rodrigo Sobreira.

“A comunidade acadêmica, alunos, docentes e técnicos têm a oportunidade do aprendizado mútuo e respeito às diferenças”.- Rodrigo Sobreira, assessor de Relações Exteriores da UEG

A presença de refugiados no Brasil em busca de estudo é algo comum em diferentes regiões do país. Além da UEG, instituições como as universidades federais de São Carlos (UFSCar), em São Paulo, e de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, também reservam parte de suas vagas para imigrantes e refugiados. Os vestibulares especiais e programas de permanência universitária são formas de inserção social que estão dando resultado. 

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Criado em 2009, o vestibular para refugiados organizado pela UFSCar já contou com nove edições. A iniciativa foi incorporada às metas do Programa de Ações Afirmativas da instituição. “Percebe-se que essa política é de fundamental importância para acolher as pessoas em situação de refúgio no Brasil que desejam ampliar seus conhecimentos e oportunidades por meio da inserção na vida acadêmica”, destaca o coordenador de ingresso na graduação da UFSCar, Wagner Souza dos Santos. 

Na UFSM, o ingresso especial foi criado a partir do contato com os próprios refugiados e imigrantes que vivem na região de Lajeado/RS. Em 2014, os integrantes do projeto de pesquisa, ensino e extensão em Direitos Humanos conhecido como Migraidh ouviram haitianos sobre seu processo migratório e as dificuldades que encontravam no Brasil, assim entendendo a história dessas pessoas e de suas famílias que ficaram para trás, além dos seus objetivos. 

Coordenado pela professora Giuliana Redin, o programa buscou alternativas para esses refugiados. “Foi um encontro com a realidade das múltiplas vulnerabilidades a que o migrante está sujeito, exposto à difícil e angustiante condição de estar em um lugar estranho, condicionado, onde não comunga a mesma língua, linguagem ou cultura”. 

Segundo Giuliana, essa situação dificulta o acesso aos direitos básicos e os coloca suscetíveis à exploração e trabalho escravo. O Migraidh tornou-se parceiro da Agência Nacional da Organização das Nações Unidas Para Refugiados (ACNUR/ONU) em 2015, ficando responsável pela Cátedra Sérgio Vieira de Mello da UFSM e o vestibular foi regulamentado em 2016. 

A adoção mais recentes às ações de incentivo à educação dos refugiados veio da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Paulo. A instituição ampliou as vagas nos cursos superiores para refugiados e criou uma Comissão Especial para atender os novos estudantes. 

Adaptação

A diferença do idioma é o primeiro choque ao chegar em um país diferente do seu, o que se agrava mais quando as condições do migrante são de vulnerabilidade social. Pensando nisso, a Organização Não Governamental (ONG) Gyn Campus, grupo formado por estudantes goianos de graduação, criou o projeto de ensino de Língua Portuguesa para refugiados chamado "Be Welcome", que foi uma ideia proposta pela professora Milene Amaral do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG) e adaptada pelos alunos. 

Estudantes de graduação são os professores voluntários do projeto Be Welcome 
Créditos: Fernanda Stival

O Be Welcome tem como voluntários estudantes universitários de Goiânia, enquanto a parte física do projeto é disponibilizada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com o apoio do Núcleo de Línguas da instituição. 

A proposta do projeto é abordar temas do dia a dia em suas aulas, sendo que cada dia tem um assunto diferente. De acordo com o estudante de Relações Internacionais e presidente da Gyn Campus, Vander Finotti, o Be Welcome ensina o Português do cotidiano, os participantes aprenderão a ler documentos importantes, interpretar os classificados, folhetos, fazer currículo para procurar emprego, buscar atendimento médico na rede pública de saúde e outras necessidades básicas dos refugiados. 

“É uma oportunidade de tornar os graduandos futuros profissionais com maior sensibilidade e empatia”, Vander Finotti, presidente do Be Welcome

Poder ensinar o Português para os refugiados é uma forma de ajudá-los a sobreviver. "É integrar essa população à comunidade e lhe proporcionar o crescimento pessoal e profissional, tirando essas pessoas da margem da sociedade, como muitos vivem", ressalta Vander. Já para os professores voluntários é uma oportunidade de tornar os graduandos futuros profissionais com maior sensibilidade e empatia. 

Estatísticas

De acordo com os dados das ONU, aproximadamente 15 milhões de pessoas se encaixam na definição de refugiados: quem sai de seu país de origem por perseguição, guerra ou desastre natural. 

No Brasil, os países que mais solicitaram refúgio em 2016 foram Venezuela, Cuba, Angola, Haiti e Síria. Já os refugiados que foram reconhecidos no último ano regularmente seguem a seguinte ordem: sírios, congoleses, paquistaneses, palestinos e angolanos. 

Mesmo com a divulgação de números oficiais sobre solicitações de refúgio e regularização da permanência no Brasil, estima-se que a quantidade de refugiados e imigrantes seja muito maior, já que muitos vivem na ilegalidade devido à burocracia e altos custos dos processos para se regularizar. 

Mapa das solicitações de refúgio no Brasil em 2016 –
Créditos: Ministério da Justiça e Segurança Pública

 

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