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Em 22/08/2017 16h09, atualizado em 23/08/2017 07h08

Manifestação em Charlottesville e a questão racial nos Estados Unidos

Atualidades

A manifestação organizada pela extrema-direita em Charlottesville reacendeu o debate em torno da questão racial e do escravagismo presente na história americana. Por Daniel Neves Silva
A retirada da estátua do General Robert E. Lee motivou a manifestação da extrema-direita em Charlottesville *
A retirada da estátua do General Robert E. Lee motivou a manifestação da extrema-direita em Charlottesville *
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Em agosto de 2017, o debate sobre grupos de supremacistas brancos e neonazistas reacendeu após uma manifestação, realizada pela extrema-direita dos Estados Unidos, contar com a participação de pessoas vinculadas a esses dois grupos. O protesto organizado pela extrema-direita americana aconteceu na cidade de Charlottesville, Virgínia, e apresentou como lema central a expressão “unir a direita” (Unite the Right, em inglês).

O que aconteceu em Charlottesville?

A pequena cidade de Charlottesvile, no Estado da Virgínia, foi centro de um grande protesto organizado pela extrema-direita americana em agosto de 2017. Esse protesto tinha como lema “unir a direita” e aconteceu após surgirem tensões por causa da proposta da prefeitura de Charlottesville de retirar uma estátua do general confederado Robert E. Lee.

Essa manifestação contou com a adesão de diversos grupos extremistas dos Estados Unidos, e, entre eles, havia manifestantes que portavam símbolos confederados e nazistas, além de efeturarem gestos e proferirem lemas nazistas.

Os manifestantes da extrema-direita que estavam em Charlottesville ainda portavam armamentos pesados (na Virgínia, o porte de arma é legal), vestimentas e símbolos (como as tochas que carregavam) relacionados ao grupo supremacista de extrema-direita Ku Klux Klan (KKK). A KKK está diretamente relacionada com o racismo contra afro-americanos e promoveu intensa perseguição racial nos Estados Unidos, sobretudo na década de 1920.

A manifestação organizada pela extrema-direita e composta por supremacistas e neonazistas motivou grupos contrários a organizarem uma contramanifestação no dia seguinte, em Charlottesville. Os contraprotestos contaram com a participação de grupos como o Black Lives Matter, que combatem principalmente a desigualdade e a violência institucionalizada contra afro-americanos.

A tensão existente entre esses dois grupos concentrados (grupos da extrema-direita e os contramanifestantes) acabou levando a um intenso confronto entre as duas partes, com cenas de violência generalizada pelas ruas de Charlottesville. Durante esses confrontos, um simpatizante neonazista, chamado Alex Fields Jr., jogou um carro contra manifestantes antifascistas, matando uma mulher de 32 anos, Heather Heyer, e ferindo outras 19 pessoas. A violência desse enfrentamento fez com que o governo estadual decretasse estado de emergência para deslocar unidades policiais especiais para a cidade.

Os protestos organizados pela extrema-direita foram intensamente criticados pelo prefeito de Charlottesville, Mike Signer, que descreveu a manifestação da extrema-direita como um “desfile covarde de ódio, intolerância e racismo”. Já o presidente americano, Donald Trump, adotou uma postura mais conservadora e condenou as demonstrações de “ódio e violência de diversas partes”, sem condenar necessariamente a conotação racista e neonazista da manifestação da extrema-direita.

A manifestação em Charlottesville, que reuniu grupos neonazistas e supremacistas brancos (como a KKK), foi organizada por Jason Kessler, um supremacista da extrema-direita que mora em Charlottesville e lidera um grupo radical chamado “Unity and Security for America”. Essa manifestação contou ainda com a participação de Richard Spencer, líder da “Alt-Right” americana. O termo Alt-Right faz menção ao grupo conhecido como “direita alternativa”, que é acusado de ser racista, antissemita e xenófobo.

Além deles, David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan nos Estados Unidos, esteve presente na manifestação. Duke é conhecido por ser defensor de ideais nazistas e por atuar em grupos radicais de extrema-direita nos Estados Unidos. Ele também ficou conhecido por negar o Holocausto e por ter uma visão simpática quanto a Donald Trump (apesar de manifestar algumas críticas ao presidente).

General Robert E. Lee e a polêmica racial nos Estados Unidos

A manifestação dos supremacistas brancos e neonazistas organizada em Charlottesville, em agosto de 2017, aconteceu após um projeto que tramitava na prefeitura da cidade determinar a retirada de uma estátua em homenagem ao general confederado Robert E. Lee. A figura de Lee é exaltada por determinados grupos radicais como um símbolo histórico do Sul dos Estados Unidos.

O general Robert Edward Lee nasceu no Condado de Westmoreland, localizado no Estado da Virgínia, em 19 de janeiro de 1807. Ele era filho de Henry Lee III, reconhecido como um herói de guerra que lutou pela independência dos Estados Unidos no século XVIII. Robert E. Lee tornou-se um militar com participação destacada na guerra travada pelos Estados Unidos contra o México, entre 1846 e 1848.

Na década de 1860, pouco antes da Guerra de Secessão, Robert E. Lee foi convidado pelo presidente americano Abraham Lincoln a liderar os exércitos da União, mas o pedido de Lincoln foi recusado por Lee, que alegava não querer lutar contra o seu estado (a Virgínia atuou pelo lado Confederado na Guerra).

A Guerra de Secessão foi travada de 1861 a 1865, entre os Estados do Norte (chamados de União) e os Estados do Sul (chamados de Confederados). O motivo principal que desencadeou o início da guerra civil nos Estados Unidos foi o debate relacionado à escravidão. Os Estados do Norte, liderados por Abraham Lincoln (presidente americano na época), eram favoráveis ao fim da escravidão nos Estados Unidos, diferentemente dos Estados do Sul, os quais lutavam para mantê-la.

A eleição de Abraham Lincoln, nas eleições presidenciais de 1860, elevou a tensão entre os dois blocos e levou os Estados do Sul a declararem a secessão e a fundarem os Estados Confederados da América. A derrota dos Confederados na guerra possibilitou a abolição da escravatura em todo o território dos Estados Unidos.

Durante a guerra, Robert E. Lee liderou os exércitos confederados (ele havia abandonado seu cargo no exército da União depois de ter rejeitado o convite para liderá-lo). Apesar de ser visto como um bom militar, Lee fracassou em comandar os Confederados na guerra e, inclusive, adotou estratégias que foram consideradas equivocadas e que contribuíram para a derrota do Sul.

Após a guerra, Robert E. Lee transformou-se em um símbolo sulista, e sua personalidade adquiriu grande popularidade, ao ponto de homenagens serem realizadas, como a construção de estátuas. Defensores de Lee afirmam que o general confederado tinha uma visão desfavorável em relação à escravidão, mas essa versão é contestada por documentos da época, os quais demonstram que Robert E. Lee possuía diversos escravos e que os tratava de maneira cruel. Além disso, existem evidências de que, durante a guerra, Lee tenha liderado ataques na Pensilvânia com o objetivo de obter afro-americanos livres para escravizá-los no Sul.

As homenagens prestadas a Lee, e a outras personalidades relacionadas aos Estados Confederados, são consideradas por muitos uma lembrança histórica do escravagismo e racismo nos Estados Unidos e, por isso, seriam inaceitáveis. Os defensores de Lee afirmam não haver racismo nas homenagens prestadas ao general Lee e em outros símbolos relacionados com os Confederados.

Durante a manifestação em Charlottesville, foi registrada ainda a presença de símbolos relacionados com a Ku Klux Klan. A KKK é considerada um dos maiores símbolos do passado de racismo da história dos Estados Unidos. Esse grupo foi criado em 1865, na cidade Pulaski, Tennessee, por seis ex-soldados que haviam lutado pelos Confederados na Guerra de Secessão.

A KKK, em sua primeira fase (1865-1871), atuou contra líderes da comunidade afro-americana na Era da Reconstrução, que ocorreu logo após a Guerra de Secessão. Usando trajes brancos, os membros da KKK faziam ataques organizados contra afro-americanos e contra brancos que mantinham posições moderadas em relação à questão racial. A atuação desse grupo nessa primeira fase enfraqueceu-se a partir de 1871.

A segunda fase da KKK iniciou-se a partir de 1915 e marcou o auge dessa organização terrorista. Nesse período, o grupo assumiu sua fase mais violenta, promovendo diversos ataques contra afro-americanos, judeus e católicos (a KKK é uma organização que se autodenomina protestante) e chegou a contar com mais de quatro milhões de membros nessa época. O crescimento da KKK levou o governo americano a intervir contra essa organização terrorista, o que provocou a decadência desse grupo a partir de 1924.

A KKK tinha como símbolo a vestimenta e o capuz branco e, em seus encontros, a cruz em chamas tornou-se bastante comum. Atualmente, as pequenas células que se consideram herdeiras dessa organização também possuem alguma relação com ideais neonazistas. Em sua história, a KKK foi responsável pela morte de milhares de pessoas.

Neonazismo nos Estados Unidos

A manifestação “Unite the Right”, que reuniu grupos da extrema-direita na cidade de Charlottesville, contou ainda com a presença de pessoas vinculadas a grupos neonazistas americanos. Durante essa manifestação, havia pessoas portando bandeiras da Alemanha Nazista e proferindo expressões utilizadas pelos nazistas.

Segundo estudos mantidos pelo Southern Poverty Law Center, um grupo antirracista que mantém dados sobre grupos extremistas nos Estados Unidos, existem atualmente 99 grupos neonazistas espalhados por diversas partes do país. Dos 99 grupos neonazistas existentes, o National Alliance é considerado um dos principais. 

O National Alliance foi criado na Virgínia Ocidental, em 1970, e, até 2002, participou dele um dos principais nomes do neonazismo americano, William Pierce. Seus integrantes defendem a formação de um Estados Unidos exclusivamente para os brancos e apresentam posturas claramente antissemitas e opiniões racistas contra afro-americanos e latinos.

Movimentos neonazistas como o National Alliance ganharam força nos Estados Unidos a partir da década de 1970 e fazem uma releitura dos ideais nazistas para os dias atuais. Em geral, os grupos neonazistas norte-americanos possuem uma visão que nega a existência do Holocausto, são supremacistas brancos e defendem a constituição de uma América para os brancos, são antissemitas e alimentam preconceito radical contra negros, latinos e muçulmanos.

O nazismo surgiu com um partido criado na Alemanha, em 5 de janeiro de 1919, sob o nome de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Liderado por Adolf Hitler a partir da década de 1920, o Partido Nazista defendia ideais antissemitas e nacionalistas que promoviam a exaltação da suposta raça ariana (germânica) como uma “raça superior”.

A ideologia do nazismo foi organizada por Adolf Hitler em seu livro chamado Mein Kampf (“Minha Luta”, em alemão) e demonstrava uma grande aversão ao comunismo. Além disso, Hitler era abertamente antissemita e chegou a colocar em prática planos para promover o genocídio de judeus na Europa, no chamado Holocausto. O projeto antissemita de Hitler efetuou a criação de grupos militares (conhecidos como Einsatzgruppen) com o objetivo de realizar a limpeza étnica na Europa durante a Segunda Guerra Mundial e construir diversos campos de concentração e extermínio. O Holocausto promovido pelos nazistas resultou na morte de seis milhões de judeus em toda a Europa.

Outro ideal constituído por Hitler no Partido Nazista, e baseado em seus ideais racistas e eugenistas, foi a constituição de um “espaço vital”, o qual seria habitado pelos arianos (germânicos). Nesse “espaço vital”, Hitler defendia a construção de um novo império alemão em regiões do Leste Europeu, que deveriam ser conquistadas à força e os povos eslavos, seus habitantes, vistos por Hitler como “inferiores”, deveriam ser explorados para manter os arianos.

Aplicações no Enem

Caro estudante, os acontecimentos de Charlottesville e os debates que se desdobraram após os confrontos podem ser cobrados no Enem. Por isso, é importante manter-se atualizado sobre algumas questões relacionadas, como:

História dos movimentos por direitos civis: Os movimentos pelos direitos civis são basicamente as mobilizações organizadas, sobretudo a partir da década de 1950, para a luta de grupos historicamente marginalizados na sociedade ocidental. No caso dos Estados Unidos, destacou-se a luta dos movimentos negros, que contaram com a atuação de nomes como Martin Luther King, Rosa Parks e Malcolm X.

Islamofobia: Nos dias atuais, os casos de islamofobia aumentaram consideravelmente. Desde 2015, o número de grupos extremistas e islamofóbicos cresceu 197% nos Estados Unidos. O debate em torno da islamofobia é uma pauta importante na atualidade dos Estados Unidos, principalmente pela postura abertamente islamofóbica assumida pelo presidente americano Donald Trump e sua intenção de barrar a entrada de muçulmanos de determinadas nacionalidades.

História dos Estados Unidos: a manifestação racista em Charlottesville pode ser utilizada como contextualização para questões relacionadas diretamente a eventos da história americana. Destacam-se entre esses eventos a Guerra de Secessão e a divergências entre Norte e Sul na questão escravagista e a atuação da KKK entre o século XIX e XX.

História do Nazismo: a presença de neonazistas na manifestação em Charlottesville pode ser utilizada como contextualização para questões relativas à constituição da ideologia nazista. Nesse tópico, podemos relacionar o crescimento de grupos neonazistas nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

* Créditos da imagem: Katherine Welles e Shutterstock

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